domingo, 22 de janeiro de 2012

Museu Paulista da USP - Museu do Ipiranga

No último dia 17 visitamos o Museu Paulista da USP, mais conhecido como Museu do Ipiranga. Movido por essa visita decidimos fazer uma resenha do que vimos. Nota: o objetivo deste post não é fornecer um guia do museu e seu acervo, mas uma análise do museu em geral, sua organização e serviços.

Fachada do museu

Um ponto positivo, logo de cara, é que o museu conta com uma área de estacionamento fechada, com seguranças e, importante, gratuita. Isso já é uma grande vantagem, ainda mais em uma cidade como São Paulo. O prédio do século XIX onde funciona o museu, apesar de não estar em ótimo estado de conservação, é imponente e impressiona, bem como o jardim, à sua frente.

Vista parcial do jardim

A portaria de entrada apresentou, a nosso ver, alguns probleminhas. Pra começar, na bilheteria o visitante não recebe nenhum bilhete ou ticket que comprove que ele pagou os R$6,00 da entrada de adulto. Pode parecer frescura exigir isso mas não é: sem um bilhete, quem garante que o dinheiro pago na entrada vai ser mesmo destinado ao museu e não desviado? Não se trata de acusar ninguém, mas sim de demonstrar uma falha. Além disso, se ocorre, dentro do museu, algum acidente, por exemplo, como comprovar que você estava lá dentro e que havia pago a entrada? Além disso, na entrada não há a possibilidade de retirar nenhum guia impresso sobre o museu, da mesma forma que não há nenhum audio-guia disponível, também.
Quanto ao acervo e às exposições, percebe-se um esforço no sentido de proporcionar momentos de aprendizado e não de simples contemplação. Há recursos eletrônicos que explicam algumas obras em exposição, o que é muito interessante. Porém, há pouca informação em outros idiomas que não o português. Além disso, embora o acervo conte com obras importantes e famosas (dentre elas O Grito do Ipiranga, de Pedro Américo), em alguns momentos sente-se que algumas peças, como os carros de bombeiros e sanitários, por exemplo, estão um pouco desconectados do restante do acervo. É interessante notar também a presença de uma lojinha do museu. Muitos museus brasileiros não têm uma lojinha de souvenirs, que pode ser uma fonte de rendimentos legal para a instituição. Por último, cabe um elogio ao site do museu, com informações atualizadas de horários, preços, dias de funcionamento e exposições. Com uma página em dia fica fácil programar sua visita.

Ressalva: Esta postagem, como já informado no início, é uma análise daquilo que vimos em nossa visita. Não questionamos a competência nem a lisura de nenhum funcionário ou da administração. Os pontos negativos devem ser vistos como impressões que tivemos, sugestões de melhoria e não desabonam o trabalho feito pela instituição. Não podemos afirmar aqui se há, por exemplo, verbas suficientes para que outras melhorias fossem feitas. Conhecendo a realidade das instituições de educação e cultura brasileiras, é bem provável que estejam sendo feitos malabarismos com o dinheiro disponível para a instituição continuar atuando.

Quer saber mais?
A
cesse www.mp.usp.br/

Onde fica?

Exibir mapa ampliado

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Mudanças no plano de carreira de São José dos Campos

Sob pressão, a Prefeitura de São José vai rever os projetos do novo plano de carreira dos servidores. As principais alterações deverão ocorrer no plano do magistério, o mais criticado. As alterações serão apresentadas pelo governo municipal na quinta-feira --um dia antes da greve convocada pelo sindicato da categoria.
 
 http://www.ovale.com.br/nossa-regi-o/sob-press-o-cury-decide-rever-plano-de-carreira-de-servidores-1.167323

sábado, 8 de outubro de 2011

Santana: um pouco da história da industrialização do Vale do Paraíba - SP

A região norte de São José dos Campos foi o local onde se estabeleceu o primeiro bairro da cidade: Santana. Lá, segundo o primeiro zoneamento urbano do município, era a região de instalação de indústrias. Esse zoneamento colocava as primeiras fábricas de São José dos Campos bem pertinho da estrada de ferro (propício para a distribuição da produção). Nesse momento - início do século XX - duas empresas se destacaram: a Tecelagem Parahyba e a Cerâmica Weiss. Quase todo o patrimônio da Tecelagem Parahyba compõe o atual Parque da Cidade Roberto Burle Marx. Já a Cerâmica Weiss está praticamente em ruínas. Uma curiosidade, que demonstra o prosperidade econômica desses empreendimentos é que em ambos foram fundadas escolas (a Escola Weiss e o Grupo Escolar Tecelagem Parahyba). Além dessa semelhança, as empresas têm em comum o fato de terem sido administradas familiarmente, em suas origens. Essa era uma tendência comum no Estado de São Paulo, no final do século XIX e início do XX. Assim como as escolas, que, dentro desse modelo de industrialização, envolvia serviços de assistência prestados aos funcionários e seus familiares.
Essas mesmas características são vistas na Companhia Taubaté Industrial (a famosa CTI), de Taubaté, que, administrada pela família Guisard, incluía em seus serviços aos funcionários, um grupo escolar e colônia de férias.


Estação ferroviária de São José dos Campos

Estrada de ferro Rio de Janeiro-São Paulo: trecho de São José dos Campos



Antiga Cerâmica Weiss


O que sobrou da Escola Weiss

Letreiro Escola Weiss

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Contribuição ao debate: Educação Patrimonial e Educação Escolar

O texto a seguir foi enviado como colaboração aos debates do II ENEP, citado na postagem anterior.

Esta proposta de contribuição para os debates sobre Educação Patrimonial, como desdobramento do documento final do II Encontro Nacional de Educação Patrimonial (II ENEP) é uma discussão a respeito do diálogo possível entre a Educação Patrimonial e a Educação Escolar. A perspectiva aqui presente é baseada na atuação prática docente. Isto implica dizer que os argumentos aqui elencados representam o ponto de vista de um professor e não de um gestor de política pública.
A primeira ressalva que se faz é que não se pretende, com esse texto, resolver questões e propor soluções definitivas. A proposta é, antes de tudo, problematizar os pontos de confluência entre as duas naturezas de educação – a escolar e a patrimonial. Assim, podemos partir do princípio que, na prática, a educação escolar, a Escola, não assume como uma de suas tarefas prioritárias a Educação Patrimonial. Tanto é assim que o tema não é contemplado nos cursos formadores de professores. Existem algumas práticas, contudo, no ambiente escolar, que teriam como função suprir essas lacunas. Sobre algumas dessas práticas se discutirá mais à frente. Outro registro que se mostra importante é a respeito da inserção da Escola na esfera da cultura escrita letrada. Essa inserção ocorre mutuamente, com a Escola se inserindo nesse mundo da cultura letrada e vice-versa. O posicionamento dessa relação impõe uma hegemonia da cultura escrita na Escola, impossibilitando ou dificultando o relacionamento ou inserção de outras formas de registro e manifestação no ambiente escolar. Aqui se tem um primeiro ponto de contato entre a Escola e a Educação Patrimonial. Por estar inserida também dentro de uma lógica institucional, a política pública relativa ao Patrimônio vale-se do registro escrito como forma de validação de seus critérios sobre o que seja Patrimônio (ou pelo menos sobre o que seja um Patrimônio merecedor de preservação e cuidado por parte do poder público e, consequentemente, da sociedade toda). Como é de conhecimento, as políticas públicas de preservação do Patrimônio voltaram-se, primeiramente, para bens concretos, materiais, (prédios, objetos) cujo registro e assimilação por essa cultura letrada é muito mais fácil. Apesar de não contemplar todas as dimensões possíveis do Patrimônio, aqui talvez se tenha um ponto de contato que possibilitaria uma “entrada” da Educação Patrimonial no mundo da Educação Escolar. A referência na cultura letrada, nas mesmas formas de registro (escrito, institucional), pode facilitar o diálogo e a aproximação.
O Patrimônio não é, no entanto, composto somente da dimensão material. Hoje, as manifestações imateriais da cultura de um povo já gozam do status de bens patrimoniais a serem preservados. Essa modalidade de Patrimônio emana de práticas diversas e depende, principalmente, de alguns sujeitos conhecedores dessas práticas. Esses mestres populares vêm ganhando gradativamente o reconhecimento do Poder Público, o que tem propiciado a sobrevivência de certas práticas e saberes. Contudo, esse conhecimento é algo imaterial (como é da natureza do conhecimento) e, na maior parte das vezes, parte de referências culturais que não se baseiam no registro escrito da cultura. A lógica de reprodução e de atualização desses saberes opera em circuitos (culturais, sociais) em que a escrita e a educação formal não são determinantes. Isso não faz, por si só, impossível a entrada dessas formas de cultura no ambiente escolar. Uma alternativa seriam as chamadas “vivências”: momentos diferenciados em que os estudantes sairiam da aula tradicional e imergiriam em conhecimentos e experiências relacionadas a esses saberes. Essa modalidade, contudo, talvez reforçasse a noção de que esses conhecimentos são acessórios à Educação formal ou meros exotismos, ou ainda simples formalidades que precisam ser cumpridas. Para que isso não ocorresse seria necessário um planejamento extremamente criterioso desse processo, sendo tomados como um processo educacional de longo prazo, sem o imediatismo que caracteriza as metas e números que costumam avaliar a Educação.
Uma outra possibilidade seria, até mesmo mesclando-se à anterior, a inserção daqueles sujeitos ditos mestres populares no ambiente escolar. Essa alternativa seria mesmo interessante de ser praticada em um ambiente escolar voltado para a comunidade atendida. Para isso, parece-me, seria necessária a valorização da gestão democrática com intensa participação da comunidade. Isso porque os valores e saberes a serem transmitidos, comunicados poderiam tornar-se curiosidades exóticas se ministrados por um sujeito que não pertença àquela comunidade. Nessa visão, só faria sentido incluir essa forma de diálogo se aqueles conhecimentos a serem comunicados encontrassem eco na comunidade que os abriga. Assim, a Escola poderia abrir-se, sem preconceitos, ao que é do povo e deixar, ao mesmo tempo, de ser um corpo estranho, imposto pelo Poder Público, sem significação relevante à população que serve.
Enfim, o que se mostra é esse quadro empírico com algumas possibilidades e vários riscos. Como toda ação de educar, existe a necessidade de um equilíbrio entre as condições estabelecidas e a atuação pessoal, individual. Ao mesmo tempo em que são necessárias regras, leis, padronizações, também se fazem urgentes ações individuais que respeitem essa tensão: dar a cada coisa, a cada sistema de valores e conhecimentos o seu lugar, cuidando para que não se imponham predileções pessoais. Isso, contudo, é tarefa muito difícil, uma vez que o próprio ato aqui realizado de demonstrar opiniões e crenças pessoais guarda em si uma proposta de convencimento do outro.


Gabriel Ilário Lopes, professor de História, especialista em Educação: História, Cultura e Sociedade pela Universidade de Taubaté